sábado, 2 de agosto de 2014

A relação entre livre-arbítrio e soberania divina segundo Augustus Nicodemus...







O vídeo acima é um excerto de uma palestra do teólogo Augustus Nicodemus Lopes. O palestrante dispensa apresentações, sendo um dos maiores expoentes do pensamento calvinista no Brasil. O curioso é que ele parece, no vídeo, destoar de boa parte do pensamento calvinista com sua tentativa de solução da problemática entre predestinação e livre-arbítrio. Usualmente, calvinistas se alinham em duas propostas (na verdade, a diferença entre ambas é puramente artificial). Temos, de um lado, os deterministas radicais. Estes afirmam que o livre-arbítrio não existe. Todos os atos humanos são predeterminados, de forma que agimos de acordo com a determinação divina e não poderíamos proceder de outro modo. É a negação da capacidade dual de ação (não seria possível proceder de outra forma; só há uma realidade possível). Calvino acreditava nisto, de modo que "muitos calvinistas seguem o próprio Calvino em simplesmente negar o livre-arbítrio" (Olson, 2013, pg. 97; n.22). Veja a opinião do mesmo:

Uma questão mais difícil emerge de outras passagens, onde se diz que Deus, a seu arbítrio, verga ou arrasta todos os réprobos ao próprio Satanás. Pois o entendimento carnal mal pode compreender como, agindo por seu intermédio, Deus  não contraia nenhuma mácula de sua depravação; aliás, em uma ação comum, seja ele isento de toda culpa, e inclusive condene, com justiça, a seus serventuários. Daqui se engendrou a distinção entre fazer e permitir, visto que esta dificuldade a muitos pareceu inextricável, ou, seja, que Satanás e todos os ímpios estão de tal modo sob a mão e a autoridade de Deus, que este lhes dirige a malignidade a qualquer fim que lhe apraz e faz uso de seus atos abomináveis para executar seus juízos. E talvez fosse justificável a sobriedade destes a quem alarma a aparência de absurdo, não fora que, sob o patrocínio de uma inverdade, de toda nota sinistra tentam erroneamente defender a justiça de Deus. (Calvino, 1984, pg. 229)  

Uma "alternativa" (de fato, não parece constituir tal) seria o que os teólogos chamam compatibilismo. Este concorda com o determinismo no tocante à negação da capacidade dual (só podemos agir como, de fato, agimos). A diferença é que o compatibilista redefine "livre-arbítrio". A definição de livre-arbítrio realmente contrária ao determinismo é o que os teólogos chamam livre-arbítrio libertário ou incompatibilista, o qual é a capacidade de autodeterminação. Entre duas opções de possível curso de ação (chamemo-las a e b) um agente qualquer, mesmo tendo escolhido "a", por exemplo, poderia, de fato, ter escolhido "b". Nada externo ao agente determinou (de maneira irresistível; não se pode negar a existência de influências externas) sua escolha. No compatibilismo, o livre-arbítrio é redefinido como algo compatível com o determinismo. "Livre-arbítrio" seria, simplesmente, a capacidade de se fazer algo de acordo com a vontade, mas a vontade pode ser movida por algo externo ao agente. De forma quê temos só um curso de ação possível: aquele que foi determinado pela causa externa.

É estranho, mas baseado no presente vídeo, aparenta que o Nicodemus parece defender uma forma de livre arbítrio mais de acordo com a definição incompatibilista. Calvinistas ou afirmam que não há livre-arbítrio ou dizem que este é a capacidade de se fazer o que se quer, ainda que o "querer" seja devido (em última análise) a algo como o decreto divino, que tudo abrange no sistema calvinista. Se eu digo que Deus determina todas as coisas (até minhas escolhas), mas ao mesmo tempo digo que posso fazer escolhas reais e responsáveis (até resistir ao chamado divino, como é mencionado em Mt 23. 37, citado pelo teólogo) estou entrando em contradição. E não parece ser o caso de que ele falou do livre-arbítrio compatibilista (ele não usa o termo), pois o livre-arbítrio compatibilista "combina" de modo perfeito com a noção calvinista de soberania divina e de Deus como realidade toda-determinante. Não se faz necessário apelar para "antinômios"¹ (ver abaixo).

Mas o mesmo não se dá com a afirmação de que o livre arbítrio incompatibilista e a soberania divina calvinista são conciliáveis. Lembrando que o teólogo não cita o compatibilismo no vídeo, mas se ele se referiu ao livre-arbítrio compatibilista, não haveria a mínima necessidade de recorrer à nossa limitação de perspectiva para explicar a relação entre livre-arbítrio e predestinação. O livre-arbítrio compatibilista faz todo o sentido no contexto da predestinação calvinista. O que o teólogo parece defender é a negação (neste contexto) do chamado "princípio de contradição" (ou princípio de não-contradição), o qual é uma das leis do pensamento, necessárias para que proposições façam sentido e para que possamos conhecer a realidade. É o princípio que diz que "é impossível que uma coisa seja e não seja ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto" ou "não ao mesmo tempo p e não p" (Mora, 1978). E "... opostos não podem ser iguais. Pois quem afirma que 'os opostos podem ambos ser verdadeiros' não acredita que o oposto dessa afirmação é verdadeiro" (Geisler, 2002, pg. 714). O princípio da não-contradição é um dos chamados primeiros princípios, e "... primeiros princípios são a base do conhecimento. Sem eles nada poderia ser conhecido" (Geisler, 2002, pg. 713). Veja.

Os primeiros princípios são incontestáveis ou redutíveis à incontestabilidade. São evidentes ou redutíveis à evidência. E princípios evidentes são verdadeiros pela própria natureza ou in- contestáveis porque 0 predicado é redutível ao sujeito. O fato de 0 predicado ser redutível ao sujeito significa que não se pode negar 0 princípio sem usá-lo. Por exemplo, 0 princípio da não-contradição não pode ser negado sem ser usado na própria negação. A afirmação: “Os opostos não podem ser verdadeiros” supõe que 0 oposto dessa afirmação não pode ser verdadeiro. (Geisler, 2002, pg. 713)

Ou seja, se formos aceitar as afirmações do Nicodemus, temos um agente que é ao mesmo tempo livre, pois a Bíblia afirma isto e somos responsáveis por nossos atos (Nicodemus não tenta fugir do sentido claro de versículos como Mt 23.37 e At 7.51, que falam do livre-arbítrio; isto é sobremaneira interessante) e não-livre, porque seus atos foram determinados por Deus. Isto é contraditório sim! Nem Deus poderia criar seres livres e com todos os seus atos predeterminados. Isto parece com o problema da pedra pesada demais para Deus mover. Se a pedra é tão pesada assim, não poderia ser criada. Veja como o raciocínio do teólogo é estranho. Se o princípio da contradição fosse falso, teríamos que Deus poderia criar a referida pedra, pois ele é onipotente, mas não poderia, pois ela seria um objeto ao qual ele não poderia mover (o que não pode existir). Deus, logo, poderia cria-la... e não poderia! 

O teólogo parece recorrer aos referidos antinômios de modo gratuito devido ao uso errôneo dos conceitos de Trindade e União hipostática. "Três" podem ser "um" quando estamos tratando de substantivos diversos ("Deus" e "pessoa", no caso). A Trindade é um único Deus que subsiste em três pessoas. "Deus é um em substância. A unidade está na sua essência (0 que Deus é), e a pluralidade está nas pessoas de Deus (como se relaciona consigo mesmo)" (Geisler, 2002, pg. 836). Seria contraditório afirmar que Deus é uma pessoa e três pessoas, por exemplo (como já ensinou o teólogo reformado Cornelius Van Til). Não se pode compreender Deus em toda sua essência, pois este é infinito; nossas mentes são finitas. A Trindade e a União Hipostática estão além da razão; não são irracionais. O livre-arbítrio incompatibilista, realmente, não pode coexistir com a predeterminação exaustiva do sistema calvinista. Ou o determinismo (e o compatibilismo) é verdadeiro, ou o é o livre-arbítrio libertário. Acerca da Trindade:

A lei filosófica da não-contradição nos informa que algo não pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Essa é a lei fundamental de todo pensamento racional. E a doutrina da Trindade não a viola. Isso pode ser demonstrado afirmando antes de mais nada 0 que a Trindade não é. A Trindade não é a crença de que Deus é três pessoas e apenas uma pessoa ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Isso seria uma contradição. Pelo contrário, é a crença de que há três pessoas em uma natureza.
Isso pode ser um mistério, mas não é uma contradição. Isto é, pode ultrapassar a capacidade de compreender completamente, mas não vai contra a capacidade de apreender coerentemente. (Geisler, 2002, pg. 836)

E sobre a União Hipostática temos:

Como Cristo é um Alguém (pessoa) com dois Algos (naturezas); (sic) sempre que é feita uma pergunta a seu respeito ela deve ser separada em duas perguntas, cada uma aplicando-se a uma natureza. Por exemplo, ele ficava cansado? Como Deus, não; como ser humano, sim. Cristo ficava com fome? Segundo a natureza divina, não; mas na sua natureza humana, sim. Cristo morreu? Na sua natureza humana, ele realmente morreu. Sua natureza divina é eternamente viva. Ele morreu como 0 Deus-homem, mas sua Divindade não morreu. (Geisler, 2002, pg. 842)

É muito estranho ver o Nicodemus falando aquilo, pois se adotasse a solução compatibilista não precisaria afirmar tal coisa. Como dito acima, o compatibilismo é a teoria de que a verdadeira liberdade é compatível (logo, combina) com o determinismo. Não há mistério algum, portanto. E causa espanto ver calvinistas divulgando amplamente o mesmo vídeo como se este fosse uma expressão da solução do problema da relação entre livre-arbítrio e predestinação.

Não acredito que o compatibilismo seja verdadeiro, pois este é vulnerável às mesmas críticas que podem ser feitas ao determinismo radical. Se todos os atos das criaturas foram predeterminados por Deus, teríamos que Deus determinou a ocorrência de atos pecaminosos (até do pecado original). Mas Deus decretaria algo que lhe é contrário? Algo contra o qual seu Filho se manifestou (1 Jo 3.8)? E como se livrar da acusação de se fazer Deus o autor do mal, se este se origina de seu decreto, de fato? Ou admite-se o livre-arbitrio libertário ou admite-se que Deus, sua vontade e decretos são a origem do pecado no universo, o que parece inaceitável tratando-se de um Deus santo.


Notas

  1. Uma definição de antinômio (ou antinomia): "ANTINOMIAS (in. Antinomies, fr. Antinomies, ai. Antinomien; it. Antinomié). Com esse termo ou com o termo paradoxos são chamadas as contradições propiciadas pelo uso da noção absoluta de todos em matemática e em lógica." (Abbagnano, 1998, pg. 63). Norman Geisler o define como "paradoxo, que é contradição lógica".


Bibliografia

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia: Martins Fontes, São Paulo; 1998

CALVINO, João. As Institutas ou Tratado da Religião Cristã: edição clássica (latim). Campinas, Cultura Cristã; vol. 1, 1984

GEISLER, Norman. Enciclopédia de Apologética: respostas aos críticos da fé cristã. São Paulo, Vida; 2002 

MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. Lisboa, Publicações Dom Quixote; 1978

OLSON, Roger. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo, Editora Reflexão; 2013

terça-feira, 22 de julho de 2014

Endurecimento do coração do faraó...

Artigo muito esclarecedor de Norman Geisler acerca do episódio do endurecimento de Faraó. Boa leitura.

Em Êxodo 4.21, Deus declara: “Eu vou endurecer o coração dele, para não deixar o povo ir”. Mas se Deus endureceu o coração do faraó, ele não pode ser julgado moralmente responsável pelas suas ações, já que não o fez por livre e espontânea vontade, mas por coação (cf. 2C0 9.7; lPe 5.2). Parece haver um problema sério aqui em relação ao amor e à justiça de Deus (v. MAL, PROBLEMA DO [na Enciclopédia]). Se Deus ama a todos, por que ele endureceu o coração do faraó para que rejeitasse a vontade de Deus? Se Deus é justo, por que culpar o faraó pelo seu pecado, se foi Deus quem endureceu o coração dele para o pecado?
 
Soluções propostas. Há duas respostas básicas para esse problema com base em teologias divergentes.
 
A resposta do determinista rígido. Calvinistas ou deterministas rígidos (v. DETERMINISMO [na Enciclopédia]) enfatizam a soberania de Deus e afirmam que ele tem o direito de endurecer ou amolecer o coração que quiser. Quanto à justiça de Deus, a resposta é de Paulo em Romanos 9.20: “Mas quem é você, ó homem, para questionar Deus?! Acaso aquilo que é formado pode dizer ao que o formou: ‘Por que me fizeste assim?’” O amor redentor de Deus é dado aos eleitos. Mais uma vez, citando Paulo, eles insistem em que Deus “tem misericórdia de quem quer, e endurece a quem ele quer” (Rm 9.18). A forte resposta calvinista ao problema, então, é que o faraó já era um incrédulo endurecido, e Deus apenas o endureceu ao retirar a graça que suaviza os efeitos da Queda no coração incrédulo. Ele deixou o faraó intensificar sua rebelião, como um incrédulo faria sem restrição divina. Deus fez isso para mostrar seu poder e glória. O faraó não teria se arrependido verdadeiramente sem a intervenção positiva do poder redentor de Deus. Essa posição é baseada numa visão voluntarista inaceitável (v. VOLUNTARISMO [na Enciclopédia]),em que Deus pode desejar uma de duas ações opostas. Isso parece fazer Deus arbitrário quanto ao que é bom. Ao contrário do determinismo, Deus é amoroso (Jo 3.16; Rm 5.6-8; 2C0 5.14,15; 1 Jo 2.1) e não quer que ninguém pereça (2Pe 3.9). Independentemente do que o determinista diga, a justiça de Deus é impugnada se ele endurece pessoas em pecado contra a vontade destas. O livre-arbítrio e a compulsão são contraditórios. Como Paulo comentou sobre a contribuição: “Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação Deus ama quem dá com alegria (sic)” (2C0 9.7). Pedro acrescentou que os líderes da igreja, ao servirem a Deus, devem trabalhar “não por obrigação, mas de livre vontade” (lPe 5.2).
 
A resposta dos deterministas moderados. Outros respondem ao problema do endurecimento do coração do faraó alegando que Deus não endureceu 0 coração do faraó contra seu livre-arbítrio. As Escrituras deixam claro que 0 faraó endureceu 0 próprio coração. Elas declaram que o coração do faraó “se endureceu” (Êx 7.13), que ele “obstinou-se em seu coração” (Êx 8.15) e que“o coração do faraó permaneceu endurecido” à medida que Deus agia sobre ele (8.19). Mais um vez, quando Deus enviou a praga das moscas, “mas também dessa vez o faraó obstinou-se em seu coração” (8.32). Essa mesma frase ou equivalente é repetida várias vezes (v. tb. 9.7,34,35). Na realidade, com exceção da previsão de Deus acerca do que aconteceria (Êx 4.21), 0 fato é que 0 faraó endureceu primeiramente 0 próprio coração (7.13; 8.15 etc.), e Deus 0 endureceu mais tarde (cf. 9.12; 10.1,20,27).

Teólogos explicam que palavras hebraicas diferentes para “endurecer” são usadas nessa passagem (Forster, p. 1555-1568). Qãshâ, que significa “teimosia”, é usada duas vezes, uma vez quando Deus é 0 agente e uma vez quando 0 faraó é 0 agente (7.3; 13.15). Em ambos os casos, ela é usada para 0 processo geral, não para uma ação específica. Kãvêd, que significa “pesado” ou “insensível”, é usada várias vezes, não só se referindo ao coração do faraó, mas também às pragas. Deus enviou um “pesado” enxame de moscas, granizo e enxame de gafanhotos. Hãzãq, que significa “força” ou “incentivo”, é o termo usado em relação ao coração do faraó. Quando 0 faraó é o agente do endurecimento, a palavra usada ékãvéd. Quando Deus é o agente, o termo usado é hãzãq. “Embora 0 faraó tome sua própria decisão moral, Deus lhe dará força para realizá-la”, escreve Roger Forster (p. 72). Com base nisso, não há nada moralmente sinistro com relação ao “endurecimento” do faraó, e esse é o entendimento com o qual calvinistas moderados e arminianos podem concordar. Deus endureceu o coração dele de forma semelhante à maneira em que o sol endurece a argila e também derrete a cera. Se o faraó fosse receptivo às advertências de Deus, seu coração não teria sido endurecido por Deus. Mas quando Deus deu ao faraó uma suspensão temporária das pragas, ele se aproveitou da situação. “. Mas quando o faraó percebeu que houve alívio, obstinou-se em seu coração e não deu mais ouvidos a Moisés e a Arão, conforme o Senhor tinha dito” (Êx 8.15).
 
A questão pode ser resumida da seguinte forma: Deus endurece corações?




Conclusão. Se Deus endureceu 0 coração do faraó ou de alguma outra pessoa de acordo com a própria tendência e escolha dela, não pode ser acusado de ser injusto, cruel, ou de agir contrariamente ao livre-arbítrio dado por ele mesmo. E as Escrituras deixam claro que 0 faraó endureceu o próprio coração. Então, o que Deus fez estava de acordo com a livre escolha do próprio faraó (v. LIVRE ARBÍTRIO [na Enciclopédia]). Os eventos podem ser determinados por Deus na sua presciência, mas são livres do ponto de vista da escolha humana. Jesus atingiu esse equilíbrio quando disse em Mateus 18.7: “É inevitável que tais coisas [que fazem tropeçar] aconteçam, mas ai daquele por meio de quem elas acontecem!”.

Fonte

GEISLER, Norman. Enciclopédia de Apologética: respostas aos críticos da fé cristã. São Paulo, Vida; 2002, pp. 337,338.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Deus causa pecados?

É do conhecimento de muitos que o calvinismo é a crença de que Deus decreta todos os eventos no universo, de forma que nada estaria fora de seu controle exaustivo e determinação. Vejamos a citação de um dos maiores expoentes do calvinismo no Brasil, citando o próprio Calvino:

Calvino pondera que, na concepção cristã, o Senhor Deus não é uma força impessoal, mas o Criador infinito e pessoal do universo, que em sua sabedoria decretou, desde a eternidade, o que iria fazer e agora em seu poder realiza o que decretou: “Mas porque, governando céu e terra por sua providência, a tudo regula de tal modo que nada ocorra senão por sua determinação. Pois, quando se diz no Salmo [115.3] que ‘Ele faz tudo quanto quer’, trata-se de uma vontade definida e liberada”. (Ferreira, 2007, pg 303; citação retirada de As institutas, 1.16.3.)

Esta visão parece atraente e plausível para muitos, mas ela tem a consequência de tornar Deus causa eficiente do mal moral. Como é possível afirmar que Deus é o causador daquilo que Ele mais abomina no universo? Muitos calvinistas ensinam isto abertamente. Citam certos textos bíblicos para corroborar este ponto de vista. Um dos mais utilizados é aquele que se encontra em Atos, capítulo 4, versículos 27 e 28. Vejamos:

Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel; Para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado [gr. προωρισεν (proôrizen), flexão de proorizo (predestinar), é uma das seis vezes em que o termo ocorre no novo testamento; as outras ocorrência são Rm 8. 29,30; 1Co 2.7; Ef 1.5,11] que se havia de fazer. (Atos 4.27,28)

Se baseiam no fato de que Deus determinou aquela série de eventos, com o fim de prover salvação à humanidade, para afirmar que Deus preordena todos os acontecimentos no mundo, até os mas terríveis pecados (afinal, que pecado foi mais grave que o deicídio?). Temos aí uma aparente dificuldade para a visão alternativa arminiana. É possível enxergar este texto de uma forma tal que não torne, em última instância, Deus autor do pecado (pois se Ele determinou os atos pecaminosos de forma irresistível, não há como fugir da conclusão de que Ele é o agente por trás de tais atos; os pecados não ocorreriam se não fosse a determinação divina)?

Vamos trabalhar a questão. Uma analogia pode ser de muita utilidade. Imagine que um dado homem tenha um escravo que executa todas as suas ordens. Quando digo todas as ordens, quero dizer qualquer coisa possível àquele escravo realizar. Se o homem ordenar ao escravo: "tire sua vida", o escravo o fará sem pensar duas vezes. Imagine que, certo dia, o homem e seu escravo estão à beira de uma via férrea. Vem o trem em determinado momento. Nesta hora, o senhor ordena à seu servo: "quero que você se coloque nos trilhos", ordem que o escravo, resignadamente, obedece. Consequentemente, o trem passa e acaba matando o infeliz escravo.

Há certo número de elementos nesta história. Vamos decompô-la. Temos, primeiramente, determinados entes; quatro, para ser exato: o senhor, o escravo, a via férrea e o trem. Temos também alguns eventos. A ordem do senhor, a resposta do escravo, o movimento do trem e o atropelamento. A história da parte final dos evangelhos também tem alguns elementos e eventos. É possível afirmar que Deus determinou o deicídio sem, contudo, causa-lo de forma irresistível (pelo menos não no tocante às ações humanas envolvidas). Vamos lá. Os homens que assassinaram Jesus Cristo eram criminosos antes disto. Pilatos, por exemplo, havia massacrado certos galileus anteriormente (Lc 13.1). Não se fazia necessário Deus movê-los a cometer crime algum. Eles fizeram aquilo livremente. Mas poderiam não tê-lo cometido (possuíam capacidade de não agir, mas seguiram suas más inclinações quando tiveram oportunidade). A ordem para se colocar naquela situação veio de Deus; Jesus Cristo estava cumprindo o mandamento do Pai. Este seria análogo ao senhor de nossa história, enquanto Cristo corresponderia ao escravo que faz tudo o que o senhor manda. O trem formaria paralelos com os pecadores que cometeram o crime. Observe que, na história, o senhor não determina o movimento do trem; este se move independentemente do que o senhor ordene ou não. A via férrea seria semelhante à história humana. Cristo, ao colocar-se na história (seu estado de humilhação), provaria a morte na mão de pecadores. Cristo não foi preso ou assassinado antes "porque não era a hora" (ver Jo 7.30; 8.59). O atropelamento seria análogo à morte na cruz. Não é preciso conceber que Deus determinou os atos dos homens maus (eles eram maus independentemente disto tudo) mas o que foi determinado por Deus foram as circunstâncias (o estado de humilhação) que, de uma forma ou de outra, levariam à morte na cruz.

Até porque, se lermos o texto com atenção, perceberemos que a conclusão de que Deus determinou todas as ações de modo irresistível nao é necessária. Veja o verso 28: "Para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer.". Nos é dito que os autores do deicídio fizeram o que Deus havia determinado, mas não que suas ações eram inevitáveis. Como nos mostrou nosso exemplo do trem, a batida do trem foi determinada, mas não seu movimento. A morte de Cristo foi determinada (ela tinha que ocorrer de uma forma ou de outra, dado o estado de humilhação), mas não as ações malignas dos seus assassinos. Eles poderiam ter se abstido de cometer tão horrendo ato. Vejamos a nota da Bíblia de Estudo Nova Versão Internacional ao verso 28: "decidido de antemão. Não é que Deus os tivesse compelido a agir daquela maneira, mas determinara usa-los, com as ações que eles livremente escolheram, para levar adiante o seu propósito salvífico".

A solução calvinista acaba tornando Deus causa dos atos criminosos. Mas a Bíblia nos ensina que Deus se levanta contra o pecado. A manifestação suprema de Deus tem como fim, justamente, destruir as obras do Diabo (1 Jo 3.8). Deus sequer tolera ver o pecado (Hc 1.13) e sequer passa pelo seu coração ordenar a ocorrência de crimes (Jr 7.31). Por que, no fim das contas, Deus causaria eventos pecaminosos? Só se ficar provado que a interpretação reformada do texto de Atos é a única viável, pode-se considerar tal questão.


Bibliografia:

BARKER, Kenneth (ed.). Bíblia de Estudo Nova Versão Internacional. São Paulo, Vida; 2003.

BÍBLIA ONLINE (acessado em 14/12/2013, 07:00).  

FERREIRA, Franklin. Teologia Sistemática. São Paulo, Vida Nova; 2007.
Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel;
Para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer.

Atos 4:27-28
Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel;
Para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer.

Atos 4:27-2
Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel;
Para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer.

Atos 4:27-
Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel;
Para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer.

Atos 4:27-2
Que disseste pela boca de Davi, teu servo: Por que bramaram os gentios, e os povos pensaram coisas vãs?
Levantaram-se os reis da terra,E os príncipes se ajuntaram à uma,Contra o Senhor e contra o seu Ungido.
Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel;
Para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer.

Atos 4:25-
Que disseste pela boca de Davi, teu servo: Por que bramaram os gentios, e os povos pensaram coisas vãs?
Levantaram-se os reis da terra,E os príncipes se ajuntaram à uma,Contra o Senhor e contra o seu Ungido.
Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel;
Para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer.

Atos 4:25-2

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Dave Hunt - Que Amor É Este? A Falsa Representação de Deus no Calvinismo Parte 1/2




Excelente vídeo...

Comentário ao texto de Romanos 9

Um pequeno coment àquele que é um dos textos mais utilizados pelos calvinistas... Elaborado com contribuição do meu querido irmão Martival...

“1 Digo a verdade em Cristo, não minto, dando testemunho comigo a minha consciência no Espírito Santo,
2 que tenho grande tristeza e incessante dor no meu coração.
3 Porque eu mesmo desejaria ser separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne;
4 os quais são israelitas, de quem é a adoção, e a glória, e os pactos, e a promulgação da lei, e o culto, e as promessas;
5 de quem são os patriarcas; e de quem descende o Cristo segundo a carne, o qual é sobre todas as coisas, Deus bendito eternamente. Amém.”

O capítulo começa falando acerca do propósito de Deus para com Israel. Na economia divina, Israel ocupa um lugar especial. O texto não trata de coisas como um decreto no qual Deus decide salvar ou perder alguém, mas de um propósito específico para com o povo judeu.

“6 Não que a palavra de Deus haja falhado. Porque nem todos os que são de Israel são israelitas;”

Uma negação de algo como uma salvação baseada em critérios étnicos. Isto era um “tapa na cara” de muitos judeus, que achavam que, só por serem judeus, mereciam as bênçãos divinas.

“7 nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência.”

Todo calvinista concorda (pelo menos penso eu) e a experiência mostra que há muitos árabes que conhecem Cristo e alcançam a salvação. Logo, este versículo não fala de salvação como um privilégio dos judeus. Os árabes (descendentes de Ismael) também são beneficiados com a benção da salvação.

“8 Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus; mas os filhos da promessa são contados como descendência.”

Uma refutação da ideia de que Deus tem interesse salvífico em algo como o “Israel étnico”. Até agora não se pode ver nada parecido com uma predestinação incondicional.

“9 Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho.
10 E não somente isso, mas também a Rebeca, que havia concebido de um, de Isaque, nosso pai”

Até aqui, nada da falada predestinação nos moldes calvinistas, mas, antes, se fala do propósito de Deus para com Israel. Como dito acima, o povo judeu desempenha um papel crucial na história da salvação. É por meio deles que veio “o Cristo segundo a carne”.

A história da salvação não começa aqui, como nos mostram os textos que falam dos santos e patriarcas pré-abraâmicos (Abel, Sete, Noé, etc.). Mas algo novo estava por vir. E é aí que os judeus entram na história (e nenhum outro povo).

“11 (pois não tendo os gêmeos ainda nascido, nem tendo praticado bem ou mal, para que o propósito de Deus segundo a eleição permanecesse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama),”

Interessante este texto. Mostra que Deus não escolheu os judeus para cumprir seu propósito salvífico com base em um mérito prévio de Jacó, ou um demérito de Esaú. O plano da salvação nasce no coração de Deus.

Mas há pessoas que dizem que este texto significa que Jacó foi escolhido para se salvar e Esaú, para se perder. Vejamos o versículo abaixo:

“12 foi-lhe dito: O maior servirá o menor.”

Mas como assim? Se estiver falando das pessoas Jacó e Esaú, temos um problema. Esaú nunca serviu Jacó. Mas o povo de Edom realmente serviu Israel. Logo o texto não fala de uma rejeição de Esaú (algo como Deus predestinando-o para o inferno), mas do fato que Deus escolheu Israel para cumprir seus propósitos no mundo.

Na Bíblia Shedd temos: “Esta profecia não se refere aos indivíduos, mas às nações que surgiram deles. Os edomitas estiveram, por longos períodos, sujeitos a Israel (cf 2 Sm 8.14; 1 Rs 22.47 etc.).”.

“13 Como está escrito: Amei a Jacó, e aborreci a Esaú.”

Quanto ao mesmo, vejamos o que Fritz Rienecker e Cleon Rogers dizem sobre o “ Amei a Jacó, e aborreci a Esaú”: “êgápêsa aor. agapáô amar [amei]. êmísêsa aor. miséô odiar [aborreci]. A expressão idiomática - um hebraísmo – significa ‘Eu prefiro Jacó a Esaú’”. Prefere para que? Com base no versículo anterior, fica difícil acreditar que Deus está falando dos filhos de Isaque. Antes, o texto se refere aos seus descendentes. Também se formos ao livro de Malaquias, capítulo primeiro, versículos 2 e 3, de onde Paulo retira a citação, veremos que o hagiógrafo claramente fala dos dois povos, e não das pessoas Jacó e Esaú.

“14 Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum.”

Claro que não há. Deus escolhe quem quer para o cumprimento de seus propósitos. No caso, Deus escolheu Israel para que destes fossem “a adoção, e a glória, e os pactos, e a promulgação da lei, e o culto, e as promessas” e para ser “de quem descende o Cristo segundo a carne, o qual é sobre todas as coisas, Deus bendito eternamente. Amém.”. Até aqui, nada mostra algo como Deus escolhendo pessoas específicas para a salvação ou a condenação,

“15 Porque diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia, e terei compaixão de quem me aprouver ter compaixão.
16 Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus que usa de misericórdia.”

Este contexto mostra uma grande verdade espiritual: Deus mostra sua misericórdia de uma forma incondicional. Nada há no homem que force Deus a salva-lo. Percebemos aqui uma ruptura. Até a pouco o texto falava do plano de Deus com Israel. Este versículo fala da dispensação da misericórdia de Deus.

Veja a nota de Shedd sobre o verso 15: “Estas palavras citadas de Êx 33.19 têm a força de declarar que a compaixão e a misericórdia de Deus não estão sujeitas a qualquer causa fora de sua livre graça e vontade.”.

“17 Pois diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei: para em ti mostrar o meu poder, e para que seja anunciado o meu nome em toda a terra.
18 Portanto, tem misericórdia de quem quer, e a quem quer endurece.”

Pergunta: Deus predestinou faraó para a perdição? O texto não diz isso. Para começo de conversa, faraó nem salvo era (estava perdido antes do endurecimento). E Deus tinha um plano para ele. Deus mostra seu poder ao derrotar os poderes malignos dos “deuses” egípcios. O endurecimento de faraó foi um juízo divino pela sua maldade (ver 1 Rs 22.1-40; 2 Ts. 2.9-12). Mas não se diz que ele endurece a quem quer? E claro. Mas isso é no sentido de que o endurecimento está determinado para aqueles que o rejeitam e sua misericórdia (faraó foi avisado várias vezes). E o desejo de Deus é endurecer e julgar estas pessoas. Ele não se deixa escarnecer (Gl 6.7). E mais. O presente episódio está inserido no plano maior de Deus com Israel.

A nota de Shedd diz:

“Cita Êx 9.16, ao passo que 8.15 afirma como faraó endurecera o seu coração. Êx 7.3 atribui este endurecimento a Deus. Deus manteve faraó em circunstâncias que ele próprio criara, as quais mantiveram sua resistência. Todo esforço de fazer o mal é permitido por Deus. Isto não quer dizer que Faraó foi criado para ser endurecido, mas nas circunstâncias que o deveriam ter levado ao arrependimento, ele, por livre vontade se endureceu.”

Completando o raciocínio de Shedd, faraó rejeita a revelação de Deus, Deus o julga por isto.

Na Bíblia de Estudo Pentecostal temos o seguinte:

“O endurecimento do coração do Faraó (v. 17), às vezes, é atribuído a Deus (Êx 4.21; 7.3,13; 9.12; 10.1; 11.10; 14;17) e, noutras ocasiões, ao próprio Faraó (Êx 7.22,23; 8.15,32). Faraó, cujo coração já estava em oposição a Deus, recebeu o devido julgamento da parte de Deus. Quando Faraó resistiu à vontade de Deus, a resposta de Deus foi endurece-lo ainda mais (ver Êx 7.3 nota). Sendo assim, o endurecimento do coração de Faraó não foi uma ação arbitrária de Deus, pois Ele agiu segundo seu princípio justo, de endurecer todos aqueles que o rejeitam (cf. Rm 1.21-32)”

“19 Dir-me-ás então. Por que se queixa ele ainda? Pois, quem resiste à sua vontade?”

Quem resiste à vontade de Deus? No tocante ao plano de Deus para a história da salvação, ninguém (e é a isto que o contexto se refere). No tocante ao plano de Deus para a salvação individual? O indivíduo (Mt 23.37).

“20 Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?
21 Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para uso honroso e outro para uso desonroso?”

Aqui podemos ver uma referência ao caso de faraó (e outros)  no qual um indivíduo é escolhido (apesar de que esta escolha resulta de um juízo) para ser endurecido e julgado. Mas, lembrando, o faraó nunca foi salvo, e teve oportunidade para se arrepender. O texto não fala nada acerca de um decreto eterno para que faraó se perdesse.

“22 E que direis, se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição;”

Deus manifesta sua ira contra o pecado. Este não fica sem punição. Mesmo os “vasos da ira” foram objeto da longanimidade de Deus (Ver 2 Pd 3.9).

“23 para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que de antemão preparou para a glória,
24 os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?”

Parece que Paulo fala aqui de algo como uma predestinação (... de antemão preparou para a glória), mas esta não é individual, e sim geral e relacionada a todos os que exercem fé em Cristo. E realmente o homem se aproxima de Deus em resposta ao chamado deste. Mas tem que haver uma resposta do homem (é um sinergismo: chamado/resposta)!

Vejamos o que diz a nota aos versos 22 e 23, da Bíblia de Estudo Pentecostal:

“A expressão “vasos de ira” refere-se àqueles que, pela prática do pecado, estão se preparando para a sua destruição eterna. O indivíduo torna-se um vaso de ira através dos seus atos pecaminosos e da própria rebelião contra Deus, conforme Paulo já declarara: ‘Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti’ (2.5). Apesar disso, os vasos de ira ainda poderão arrepender-se, voltar-se para Deus e receber sua misericórdia. A expressão “vasos de misericórdia” (v.23) refere-se àqueles, tanto judeus como gentios, que creem em Jesus Cristo e o seguem (vv. 24,25)”

“25 Como diz ele também em Oséias: Chamarei meu povo ao que não era meu povo; e amada à que não era amada.”

Aqui, fala-se de uma mudança. O plano de Deus agora não é mais tratar com o Israel nacional (este cumpriu seu propósito), mas a partir da manifestação do Filho de Deus o interesse passa a ser com a Igreja.

“26 E sucederá que no lugar em que lhes foi dito: Vós não sois meu povo; aí serão chamados filhos do Deus vivo.
27 Também Isaías exclama acerca de Israel: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo.
28 Porque o Senhor executará a sua palavra sobre a terra, consumando-a e abreviando-a.
29 E como antes dissera Isaías: Se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado descendência, teríamos sido feitos como Sodoma, e seríamos semelhantes a Gomorra.
30 Que diremos pois? Que os gentios, que não buscavam a justiça, alcançaram a justiça, mas a justiça que vem da fé.
31 Mas Israel, buscando a lei da justiça, não atingiu esta lei.
32 Por que? Porque não a buscavam pela fé, mas como que pelas obras; e tropeçaram na pedra de tropeço;
33 como está escrito: Eis que eu ponho em Sião uma pedra de tropeço; e uma rocha de escândalo; e quem nela crer não será confundido.”

O contexto mostra o motivo da rejeição do povo judeu. Rejeitaram a justiça imputada de Cristo (que vem por meio da fé) e tentaram alcançar o favor de Deus pelas suas obras (os fariseus, tão piedosos, foram grandes opositores de Jesus).


Bibliografia: 

Rienecker, Fritz, Rogers, Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. São Paulo, Edições Vida Nova; 1985.

Shedd, Russel. Bíblia Shedd. São Paulo, Edições Vida Nova; 1998.

Stamps, Donald. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro, Casa Publicadora das Assembleias de Deus; 1995.

domingo, 6 de outubro de 2013

Um pouco sobre mim...

Sou arminiano por um motivo... Aliás, por muitos. Lembro-me que comecei a estudar teologia de forma metódica utilizando-se de material principalmente reformado. Minha primeira obra de teologia foi a Teologia Sistemática de Stanley Horton, publicada pela CPAD... É um bom livro, mas carece de profundidade em muitos pontos, de forma que acabei sentindo falta de algo mais substancioso. Fui apresentado em dada ocasião à Teologia Sistemática de Louis Berkhof. Para quem só tinha conhecido a TS do Horton, aquela obra, com todo aquele volume de informações parecia um desafio à altura de um ávido leitor como eu. Comecei a estuda-la, de modo que adquiri um certo conhecimento inicial do ponto de vista reformado acerca de diversos assuntos da teologia. Mas havia uma coisa muito estranha com aquele livro. O autor afirmava o conceito de Deus como realidade que tudo determina, de forma que tudo acontece porque é, em última instância, a vontade e plano de Deus.

Tudo muito bacana, mas... e o pecado? Como o pecado se encaixava neste contexto? Fiquei chocado com o autor, que afirmava que tudo (até a queda do primeiro casal humano) fora determinado por Deus. Como assim? Mas isto não torna Deus a causa do pecado, de forma que suas criaturas nada podem fazer (quem poderia ir contra um decreto divino?)? Infelizmente, este conceito repulsivo é defendido por muitos cristãos. Quando comecei a estudar, comecei em uma obra reformada por um motivo... Há um verdadeiro derrame de livros reformados no nosso país. Apesar de que a igreja evangélica da qual faço parte (Assembleia de Deus que é a maior do Brasil em número de membros) ser sinergista/arminiana, sua editora (a supracitada CPAD) também vem publicando material de autores reformados constantemente! Com o tempo adquiri bons livros arminianos, de forma a que, hoje em dia, vejo que há, apesar de as editoras evangélicas brasileiras ainda insistirem em publicar material reformado "no atacado", boas obras arminianas/sinergistas no mercado editorial brasileiro.

Este blog tem como objetivo discutir e pesquisar teologia (principalmente soteriologia) sob a perspectiva arminiana. Pretendo dar uma pequena contribuição ao que já tem sido feito por outros irmãos da internet. Estou no começo apenas, mas com a graça do nosso Senhor Jesus Cristo este projeto irá crescer... e dar frutos. Que a luz de Deus brilhe cada vez mais em nossos corações (Pv 4.18), de modo a que todo erro que tem se alastrado no meio evangélico se dissolva diante da verdade, como o orvalho da manhã se esvai perante os primeiros raios solares...